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Olga Tokarczuk e Peter Handke ganham o Nobel de Literatura
FOLHA DE S.PAULO
Thu, 10 Oct 2019 12:05

Olga Tokarczuk e Peter Handke ganham o Nobel de Literatura

FOLHA DE S.PAULO
Thu, 10 Oct 2019 12:05

A polonesa Olga Tokarczuk e o austríaco Peter Handke foram anunciados na manhã desta quinta-feira (10), no horário de Brasília, como os vencedores do prêmio Nobel de Literatura de 2018 e de 2019, respectivamente.

Olga Tokarczuk e Peter Handke ganham o Nobel de Literatura


Neste ano, dois prêmios foram concedidos porque a Academia Sueca, responsável pela escolha, não entregou a medalha no ano passado por discordâncias internas do júri.
Laureada com a medalha correspondente a 2018, Tokarczuk era uma das mais cotadas pelas bolsas de apostas. Romancista, ensaísta, roteirista e celebridade literária em seu país, a polonesa nasceu em 1962 e é autora de “Flights”, livro pelo qual ficou conhecida mundialmente após ganhar a versão internacional do Man Booker Prize em 2018, prêmio para o melhor trabalho traduzido para o inglês e publicado no Reino Unido.
No Brasil, o livro publicado foi publicado com o título "Os Vagantes" (ed. Tinta Negra), mas está esgotado. Fragmentado, romance costura histórias de diferentes séculos. Em uma, por exemplo, a autora conta a biografia imaginada de um anatomista holandês que descobriu o tendão de Aquiles, no século 17. Em outra, traz a história do coração de Chopin, carregado em um recipiente com álcool por sua irmã.

A editora Todavia comprou os direitos de outra obra da escritora, "Drive Your Plow Over the Bones of the Dead" ("Sobre os Ossos dos Mortos"), com previsão de publicação em novembro no Brasil.

Segundo o anúncio do Nobel, Tokarczuk foi escolhida por sua "imaginação narrativa que, com paixão enciclopédica, representa o cruzamento de fronteiras como uma forma de vida". Para o júri, ela "nunca vê a realidade como algo estável ou eterno, mas constrói seus romances em uma tensão entre opostos culturais". 

Isso faz com que suas narrativas sejam costuradas pela fragmentação e pela diversidade, com uma consciência de que a Polônia não é uma nação homogênea.

Algo que, em certo sentido, pode ser visto no que foi chamado pelo Nobel como sua principal obra: o romance histórico "The Books of Jacob", para o qual a autora passou anos pesquisando em arquivos e bibliotecas até criar o protagonista, Jacob Frank, líder de uma seita do século 18, proclamado por seus seguidores como o novo messias
Já o vencedor de 2019, também anunciado nesta quinta (10), Peter Handke é dramaturgo, romancista e roteirista —e muito lembrado pela parceria com o diretor Wim Wenders na roteirização do filme "Asas do Desejo" (1987), clássico com  anjos que pairam sobre Berlim e observam a cidade e seus habitantes.

O austríaco figurava há anos entre os favoritos para o prêmio por sua obra que tem um quê de kafkiana, mas que é geralmente construída em um universo silencioso, com almas vagando por percepções existenciais do mundo. 

Nascido em 1942 em uma família de minoria eslovena, Handke é mais traduzido e publicado no Brasil do que Tokarczuk. Aqui, foi lançada em 2015 a coletânea "Peças Faladas" (ed. Perspectiva), com textos escritos pelo autor entre 1966 e 1967 que não trazem um enredo nem personagens delineados. A Estação Liberdade também publicou "A Perda da Imagem: ou Através da Sierra de Gredos" e "Don Juan (Narrado por Ele Mesmo)".

Ganhador do prêmio Ibsen de 2014, que homenageia personalidades e instituições vinculadas à dramaturgia, Handke tem mais de 50 anos de carreira literária, com um grande número de obras em diferentes gêneros. Segundo a organização do Nobel, ele foi escolhido por ser "um dos mais influentes escritores europeus pós-Segunda Guerra" e por ter uma "extraordinária atenção às paisagens, o que fez do cinema e da pintura duas de suas maiores fontes de inspiração".

Os dois europeus receberão como prêmio 9 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 3,7 milhões).

De certa forma, o anúncio frustra a expectativa criada de que o Nobel de Literatura neste ano acentuaria o seu verniz de diversidade. Em outubro, o membro da Academia Sueca Anders Olsson afirmou que a diversidade era uma das prioridades do comitê.

"Precisamos ampliar nossa perspectiva", disse. "Temos uma visão eurocêntrica da literatura e agora estamos olhando para todo o mundo. Antes, estávamos observando mais os homens. Agora, existem muitas mulheres que são realmente excelentes."

Com o prêmio, Olga Tokarczuk se torna a 15ª mulher a receber a honraria entre 116 escritores premiados até hoje. Mas na questão geográfica não houve mudanças —tanto ela quanto Handke são europeus, continente mais lembrado pelo Nobel.
Nobel cancelado em 2018

A entrega do Nobel de Literatura foi cancelada no ano passado após o fotógrafo franco-sueco Jean-Claude Arnault, que administrava uma fundação cultural que recebia fundos da Academia, ter sido acusado de estupro. Ele era casado com a poeta Katarina Frostenson, que é membro da academia.

O fotógrafo também foi acusado de vazar nomes de vencedores do Nobel de Literatura. A fundação Nobel cancelou a premiação do troféu literário em 2018 e anunciou, em março deste ano, que a premiação de 2019 seria em dobro.

A Academia Sueca, criada em 1786 para salvaguardar a língua sueca, escolhe somente o vencedor do Nobel de Literatura. Outras instituições acadêmicas do país selecionam os vencedores de campos da ciência. Um comitê norueguês escolhe o vencedor do Nobel da Paz.