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 “A idosa rainha das nossas catedrais”, chamava-lhe Victor Hugo
Público
Mon, 15 Apr 2019 23:10

“A idosa rainha das nossas catedrais”, chamava-lhe Victor Hugo

Público
Mon, 15 Apr 2019 23:10

Victor Hugo (1802- 1885) consagrou um dos seus romances mais conhecidos a Nossa Senhora de Paris.

 “A idosa rainha das nossas catedrais”, chamava-lhe Victor Hugo
No livro que recebeu o nome da catedral parisiense, originalmente publicado em 1831, o escritor francês cria um vasto painel de enredos que tomam como pano de fundo e elemento simbólico e aglutinador o grande monumento gótico da capital francesa – e ícone do mundo cristão. Um dos centros da acção é, com certeza, o que se fixa na dupla constituída pelo corcunda Quasimodo e pela bela Esmeralda; no entanto, e todo um vasto conjunto de personagens e destinos cruzados que se emaranham no livro de Victor Hugo.

Nossa Senhora de Paris divide-se em onze livros, o terceiro dos quais, um dos mais breves, se concentra na grande catedral e na cidade que a envolvia, no tempo histórico que é o do romance: 1492, no reinado de Luís XI. O monarca, de resto, comparece na obra: “Com efeito, havia dois dias que el-rei Luís XI se encontrava em Paris. (...) Nunca fazia senão aparições raras e curtas na sua boa cidade de Paris, pois não sentia à sua volta suficientes ratoeiras, forcas e archeiros escoceses.” (Nossa Senhora de Paris, Círculo de Leitores, 1972, trad. José da Natividade Gaspar).
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Não é por acaso que Victor Hugo relembra ao leitor o estado de coisas do Paris de Quatrocentos. É essa urbe palpitante e perigosa, cruel e inquietante, que o referido Livro III de Nossa Senhora de Paris captura. E é essa cidade brutal e violenta, extremada nos seus contrastes e na sua dureza implacável, que cerca a catedral. Perante o terrível incêndio que, nesta segunda-feira da semana da Páscoa, assolou a catedral parisiense, as palavras de Victor Hugo parecem-nos adquirir tonalidades de uma terrível profecia – e Hugo adoptou amiúde esse tom profético.
“A igreja de Nossa Senhora de Paris é decerto ainda um majestoso e sublime edifício. Contudo, por muito formosa que se tenha mantido ao envelhecer, a custo se contém um suspiro e não nos indignamos perante as degradações, as multidões inúmeras, que simultaneamente o Tempo e os Homens causaram ao venerável monumento, sem respeitarem Carlos Magno, que assentou a primeira pedra, nem Filipe Augusto, que colocou a última. No rosto desta idosa rainha das nossas catedrais, ao lado duma ruga depara-se sempre uma cicatriz. Tempus edax, homo edacior, o que de bom grado assim traduziria: O Tempo é cego, o Homem é estúpido.”

Victor Hugo referia-se, neste passo do seu romance, às sucessivas acções de restauro do edifício da catedral, entre a precipitação e o descuido, mas também ao acumular de estilos que, em camada, foram compondo as diversas fases da sua edificação. No entanto, não há como deixar de adivinhar na entoação dada pelo escritor, a destruição que atingiu a catedral francesa, mais de 850 depois do início da sua construção.
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